Acordo Mercosul–União Europeia: impactos no comércio internacional e o novo protagonismo dos portos brasileiros

Após mais de duas décadas de negociações, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia avança para a fase de implementação e inaugura um novo cenário para o comércio internacional brasileiro.

Além da redução tarifária e da ampliação do acesso ao mercado europeu, o acordo traz um efeito estrutural importante: o fortalecimento do papel logístico do Brasil, especialmente de seus portos, como eixo estratégico das operações com a Europa.

Neste artigo, analisamos o que muda na prática, os impactos para exportadores e importadores e como as empresas podem se preparar desde já.


O que prevê o acordo Mercosul–União Europeia

O acordo estabelece uma ampla zona de livre comércio entre os países do Mercosul e um dos maiores mercados consumidores do mundo.

Entre os principais pontos estão:

  • Ampliação significativa da cobertura do comércio brasileiro por acordos preferenciais

  • Redução ou eliminação de tarifas para cerca de 95% dos produtos brasileiros exportados para a União Europeia

  • Abertura gradual do mercado brasileiro para produtos europeus, com prazos estendidos para setores sensíveis

  • Regras mais claras sobre origem, barreiras técnicas, normas regulatórias e compras governamentais

Segundo dados da indústria, a participação do comércio brasileiro coberto por acordos preferenciais deve saltar de aproximadamente 8% para 36%, considerando que a União Europeia responde por cerca de 28% do comércio mundial.


Impactos diretos para as exportações brasileiras

Para o exportador brasileiro, o acordo representa um avanço relevante em competitividade.

Principais benefícios esperados:

  • Tarifa zero para milhares de produtos industriais e agroindustriais

  • Redução de custos totais de exportação

  • Maior previsibilidade comercial no relacionamento com a União Europeia

  • Ampliação de margens e estímulo à agregação de valor

Estudos indicam que apenas 0,9% das exportações brasileiras para a União Europeia terão prazos longos para isenção tarifária, o que sinaliza impactos positivos em prazo relativamente curto para grande parte dos setores exportadores.


Abertura gradual e controlada para importações europeias

Do lado das importações, o acordo foi estruturado para preservar a competitividade da indústria nacional.

  • O Brasil terá prazos entre 10 e 15 anos para reduzir tarifas de determinados produtos europeus

  • Cerca de 56,7% das importações vindas da União Europeia só terão tarifas zeradas após uma década ou mais

  • O modelo garante uma transição mais segura, permitindo adaptação das cadeias produtivas

Esse desenho reforça a necessidade de planejamento de médio e longo prazo para empresas que operam com insumos, máquinas e produtos europeus.


O novo protagonismo dos portos brasileiros no acordo

Um dos efeitos menos comentados, mas estratégicos, do acordo Mercosul–União Europeia é o impacto direto sobre a infraestrutura portuária brasileira.

Com a expectativa de aumento no fluxo de cargas entre Brasil e Europa, os portos deixam de ser apenas pontos operacionais e passam a assumir papel central na competitividade das operações.

Atualmente, cerca de 97% do comércio exterior brasileiro passa pelos portos, o que torna a logística marítima um dos principais vetores de ganho ou perda de eficiência nesse novo cenário.


Portos estratégicos e expansão da capacidade logística

O acordo tende a impulsionar investimentos, expansão de capacidade e reposicionamento logístico de diversos portos brasileiros, especialmente aqueles com rotas consolidadas ou potencial de crescimento nas relações com a Europa.

Alguns exemplos relevantes:

  • Porto de Itapoá (SC) – projeções indicam crescimento expressivo na movimentação de cargas destinadas à União Europeia nos próximos anos

  • Porto de Suape (PE) – expectativa de ampliação significativa das exportações, com diversificação de cargas e novos fluxos internacionais

  • Porto de Paranaguá (PR) – já integrado a cadeias exportadoras consolidadas, especialmente do agronegócio e da indústria de base

Esses movimentos reforçam que a escolha do porto, da rota e do modelo logístico passa a ser uma decisão estratégica, não apenas operacional.


Efeitos logísticos em cadeia para as empresas

O fortalecimento da relação Brasil–União Europeia gera impactos diretos em toda a cadeia logística:

  • Redefinição de rotas marítimas

  • Aumento da demanda por terminais especializados

  • Maior pressão por eficiência operacional e previsibilidade

  • Integração mais intensa entre transporte, armazenagem e desembaraço aduaneiro

Nesse contexto, logística passa a ser fator competitivo.


O que as empresas precisam observar desde já

O acordo cria oportunidades, mas também exige preparo técnico.

Pontos essenciais de atenção:

  • Classificação fiscal correta (NCM) para acesso aos benefícios tarifários

  • Cumprimento rigoroso das regras de origem

  • Adequação às normas técnicas e regulatórias europeias

  • Planejamento logístico alinhado à capacidade portuária e aos prazos internacionais

  • Estruturação de operações com visão de médio e longo prazo

No comércio internacional, antecipação e estratégia fazem a diferença.


Conclusão

O acordo Mercosul–União Europeia representa mais do que a redução de tarifas. Ele redefine fluxos, fortalece o papel do Brasil no comércio global e coloca os portos brasileiros no centro da estratégia internacional.

Para as empresas, o desafio não é apenas aproveitar o acordo, mas operar de forma estruturada, eficiente e segura nesse novo cenário.

Na Inbulc, entendemos que conectar mercados exige visão estratégica, leitura de cenário e execução logística precisa — do planejamento ao desembarque final.